terça-feira, 13 de maio de 2014

É, DEBAIXO DO TAPETE VOADOR

            É, inevitavelmente, chega um momento na relação em que todos os percalços do caminho, acumulados na memória emocional, provocam um estado de cansaço tal que, diante da menor dificuldade, assumem proporções instransponíveis. Então é chegado o momento de evitar-se os questionamentos daquelas questões rotineiras, repetitivas, que sabidamente vão deteriorando a relação lentamente, mas que quando questionadas à fundo passam a deteriorar a relação rapidamente.
          É chegado, pois,  o momento de selecionarmos as questões estratégicas, que necessariamente têm que ser questionadas, jogando as demais picuinhas  para debaixo do tapete. Então, é chegada a hora de reconhecermos a importância do tapete, recurso este que julgávamos extinto no universo de uma saudável e transparente relação afetiva contemporânea. Neste momento chega-se à constatação que a transparência integral entre duas pessoas é demasiadamente estressante em sua manutenção. Chega-se a conclusão de que é chegado o momento de sermos seletivos qualitativamente, por não termos mais fôlego para enfrentarmos quantitativamente todas as questões que provocam pequenas crises na rotina de um relacionamento afetivo. Os ajustes necessários para a convivência amorosa de duas consciências são infindáveis.
É, então, chegado o momento crítico, divisor de águas: de um lado os suspiros saudosos da fase da paixão, quando podemos mover montanhas alegremente; do outro lado a expectativa de um autêntico amor serenamente eterno e sem as hipocrisias das gerações dos nossos antepassados. É chegada, pois, a hora de aprendermos a gerenciar a existência do tapete de modo a transformá-lo de Lixão em Aterro Sanitário, tratando seus dejetos biologicamente, no tempo certo, sem deixar que o chorume  contamine a nossa natureza. Reciclados, estes dejetos podem resultar em fertilizantes que regenerem a paisagem de nossas relações afetivas degradadas.
É chegada a hora de nos permitirmos varrer o que não é essencial para debaixo do tapete, mas para debaixo de um tapete dotado da capacidade de voar. É, um tapete voador, como nas lendas, que ao invés de ser um pântano de problemas camuflados, passa a ser um meio poético de transporte, no devido tempo encantado, para o longínquo país da felicidade conjugal continuada.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O MUNDO ENCANTADO DOS DEVANEIOS

        No filme Noé (interpretado por Russell Crowe), o personagem bíblico recebe a revelação de que o ser humano se tornou irremediavelmente pecaminoso. Então, Noé (filho de Matusalém, interpretado por e Anthony Hopkins) entendeu que a vontade divina era de que toda a raça humana fosse destruída no dilúvio anunciado. Como membro da raça racionalmente pecadora, Noé foi o escolhido para conduzir a transição do aguaceiro como sendo mero construtor da arca e condutor épico da salvação dos demais seres vivos. Mas inclusive ele e a sua própria família (mulher e três filhos homens) também seriam extintos posteriormente, pois acabariam sem descendentes. 
Esta abordagem do roteiro do filme, baseada no estilo das tragédias gregas, me remontou  aos meus estudos de Nietzsche: “em todos os tempos os sábios fizeram o mesmo juízo da vida: ela não vale nada! Desde Sócrates,  que disse ao morrer: Viver é estar há muito enfermo”. Daí teria se desenvolvido uma espécie de loucura da vontade, que é a crueldade psíquica da vontade do homem de sentir-se culpado e desprezível, sua vontade de crer-se castigado, sem que o castigo possa jamais equivaler à culpa, sua vontade de erigir um ideal, o ídolo do “santo Deus” e, em vista dele ter certeza de sua total indignidade.” 
A propósito, com o cristianismo em baixa e o budismo em alta, tempos atrás   eu estava lendo duas abordagens completamente antagônicas da vida, e estava inclinado a escrever alguma coisa sobre o enfrentamento dos ideais simbolizados na flor de lótus do budismo do Dalai Lama em oposição aos golpes de martelo da filosofia de Nietzsche para destruição de todos os ídolos. Estava mesmo achando que era uma empreitada que iria além da minha capacidade e autonomia de vôo, que era muita areia para o meu caminhãozinho  esta intenção de contrapor a “Compaixão Budista”, base fundamental da doutrina tibetana, com a “Genealogia da Moral” que vai “Além do Bem e do Mal”, do filósofo alemão.
O ascetismo (prática de abstenção dos prazeres) foi o instrumento utilizado por todas as filosofias e religiões para se implementar esta negação da vida com imposições de abnegações penitentes, chegando ao extremo da filosofia vedanta, ainda segundo Nietzsche, que rebaixou a própria corporeidade a uma mera ilusão. Assim, para o filósofo, “a partir desta doença niilista que acometeu a humanidade, de negação da vida, se desenvolveu o grande nojo do homem e, conseqüentemente, como uma função ascética de expiração da culpa pecaminosa de seu existir, se desenvolveu a grande compaixão pelo homem!...Em todas as religiões os crentes são convencidos que a alma se ergue deste corpo e penetra na luz suprema do infinito (no nada) e assume a sua forma própria. Em todas estas religiões pessimistas chama-se ao nada de Deus e a vida é nada.
          
          Como percebem, eu estava como um marisco na concha entre o mar e o rochedo, ao pretender contrapor o tema principal do budismo, que é justamente o altruísmo ascético, baseado no poder da compaixão e do amor, ao martelo destruidor de ídolos do Nietszche, filósofo que pretendia despertar o “super-homem” que diz haver em cada um de nós. Senti-me encurralado principalmente porque eu estava  gostando de exercitar as sessões de meditação na seita da Brahma Kumaris, e estava me identificando com a postura despojada do Dalai Lama, líder budista que centra o seu foco na busca da paz e serenidade no dia-a-dia desta vida, independente se haja ou não um Deus no além do nada nietzschiano.
         Então, entre o budismo e o nietzschianismo, mudei o meu foco de abordagem do tema  e, apesar de continuar ainda como um marisco entre estes poderosos fluxos e repuxos, pensei em contrapor a eles o “Encantado Mundos dos Devaneios”. Considerando que filosofar é pensar de forma sistemática e meditar é não pensar, ou seja, é esvaziar-se do “eu” e integrar-se ao “todo” (ou ao nada do Nietzsche), o mundo dos devaneios é entregar-se à correnteza dos pensamentos aleatórios, sem o eu impor nenhuma sistemática ou raciocínio filosófico ocidental, e sem as rédeas de amordaçamento do eu dos métodos de meditação orientais. Resgato aqui esta prática empírica e intuitiva que sempre tive imenso gosto de exercer, desde a minha mais remota infância, como uma fuga do mundo exterior e um mergulho livre no meu interior. Ás vezes ficava na cama, como ainda fico se não me policiar, por várias horas que voam como se fossem instantes de projeções extra-físicos, em devaneios de olhos fechados, em que o pensamento pulula loucamente desde coisas coerentes e reais até ficções surrealistas e absurdas. O mundo dos devaneios é um estado alfa da mente em que os pensamentos ganham a liberdade dos sonhos e se confundem com eles, de tal forma que ao final não sabemos se nos mantivemos em vigília ou se inconscientemente adormecemos e sonhamos no transcorrer do exercício. É como aquele trocadilho que diz: “sonhei que estava acordado, mas quando acordei para ver, eu estava dormindo”.
          Talvez o mundo dos devaneios encante mas não ajude, nem na evolução espiritual nem na do conhecimento filosófico, mas é incontestável que ele possibilita uma convivência consigo mesmo inigualável. Pois é com esta verdade encontrada que resolvi o meu impasse nos temas que me propunha a contrapor, com uma saída honrosa pelo viés da estética literária, que sempre foi o meu universo de enfocar e compreender a vida. Voltando ao tapete vermelho de Hollywood com “Noah”, não convém contar o final do polêmico filme Noé, pra não estragar a surpresa de quem for assistir. Mas mesmo não havendo nenhum plano divino para a continuidade dos humanos na face da terra, nós continuamos aqui pecando com muito prazer! Sobrevivemos devido às peripécias  humanas ocorridas na Arca de Nóe no transcorrer do Dilúvio cinematograficamente literário, baseado em um histórico devaneio bíblico. 

domingo, 13 de abril de 2014

Agora sou um idoso, e com pouco cabelo.

          Agora eu sou um idoso! Ariano do segundo decanato de abril, acabei de completar os meus 60 anos de idade. Conquistei, com isso, o meu passaporte com o título de “pessoa preferencial”. Ganhei o direito de furar as filas, usar as vagas de estacionamento indicadas com a figura de um velhinho de bengala e simulando dor nas costas, e agora posso andar de ônibus com passe livre de idoso ( sem desertar do Bloco de Lutas pelo passe livre para todos!). Mas, depois  dos sessenta, muitas transformações se processam na alma e  no corpo do ser humano na face da terra e, no meu caso, no humano biologicamente classificado como masculino. As mutações não são restritas aos machos por opção sexual, elas atingem a todos indiscriminadamente e, cada vez mais, atinge aos humanos geneticamente femininos que invadiram todas as praias do gênero oposto, e que agora descobrem na própria pele as contra-indicações e o stress de estar no comando.
          Um dos aspectos mais característicos, por sua visibilidade escancarada, são as metamorfoses que ocorrem no couro cabeludo das cabeças  dos homens nesta fase etária. Dos tantos longos topetes negros tipo Elvis na juventude, são pouquíssimos que chegam a ter topete branco, a maioria perde o topete todo pelo caminho. Passado a fase que “dói cada cabelo branco que nasce”, passam rapidamente pela etapa de que “dói cada cabelo que cai ”, e chegam ao calvário da migração de mechas dos cabelos da cabeça para o ralo do box do chuveiro, que dói todas as manhãs. É o calvário da calvície anunciada.
         A esta altura da vida, o sexagenário certamente já voltou decepcionado de uma primeira consulta ao dermatologista sobre calvície, aos constatar que ele é careca.  Depois ficamos desencorajados ao vermos tanta gente famosa, na televisão e no cinema, que ganha a vida com a exposição pública de sua imagem, que sobrevivem conformadas com o fato de que as perdas dos pelos da cabeça é uma coisa natural da vida. Temos todos que nos submetermos aos ditames do destino e das heranças genéticas, bem como a tantas outras perdas mais graves, além das  perdas estéticas, que a idade vai impondo na saúde do homem comum.
             O ralo do box do chuveiro entope e provoca inundações emocionais tal o tamanho da peruca que reúne toda a semana, enquanto o espelho vai captando a sequência de imagens com mudanças sutis. Mudanças que, por serem infinitesimalmente consecutivas, vão delineando o roteiro de um filme curta-metragem com a câmera fixa em close no topete: do penteado ondulado para trás evolui para um corte lambido para o lado e, no quadro seguinte, já é um penteado para a frente, com uma rala franjinha ridícula evoluindo para uns esparsos fios espalhados para todos os lados  até, Deus nos livre, o último recurso de tentar cobrir o tampo, passando os cabelos lambidos de uma lado para o outro da cabeça. 
           Uma alternativa péssima é a que insiste em lhe oferecer o seu calvo cabeleireiro preferido,  o qual já investiu o preço de um carro novo na implantação de alguns míseros fios de cabelo em sua própria cabeça e que, do alto de sua larga experiência, insiste em querer pintar os seus preciosos cabelos brancos. O cara não consegue entender que o seu  problema não é a cor dos cabelos, é a quantidade deles, e que eles iriam cair ainda mais se sofressem a  agressão de uma tintura artificial. Faz parte do marketing do ofício dele, resista.
Mas, com a grande evolução da bio-genética do novo milênio, ciência que preconiza a realização do clone humano, já é hora de começar a surgir cabeludos dermatologistas velhinhos. Os alquimistas vão chegar já-já com a fórmula da poção mágica que manterá em sua cabeça estes últimos fios de cabelos, vestígio do que foi o seu topete. Mas, se ainda lhe resta um tufo de cabelos frontais, desde já esteja consciente de que estás com um carro novo na cabeça, pois este seria o preço equivalente para implantares esse mesmo chumaço que se mantém heroicamente enraizado nessa sua cabeça já semi-nua.
Agora sou um idoso, e com pouco cabelo (exceto nas orelhas e no nariz, de onde cabelos saem como aranhas da toca)! E não é só a testa que cresce em direção à nuca, com a chegada da andropausa a barriga e as bochechas também crescem como balões murchos, com estrias e rugas. Em compensação, tudo na vida tem suas compensações valiosas: ganhei o direito a pagar meia entrada em cinemas, teatros e shows. Acreditem, vale a pena envelhecer vivo!

terça-feira, 1 de abril de 2014

Porto Alegre: Meu Cais

Estamos finalmente mergulhando nas refrescantes aragens do outono no paralelo 30, depois deste verão de 2014 que foi o mais quente dos últimos trinta anos. Calor que parece querer indicar que ainda teremos muito inferno pela frente para cozinhar no caldeirão do tempo as mazelas humanas por seus desequilíbrios ecológicos.
Quem navegar por esta região do planeta, como fizeram os açorianos, aportará na cidade de Porto Alegre, que em 26 de março passado comemorou seus 242 anos. Cidade que propicia aos seus habitantes a vivência intensa das cores e aromas característicos e diferenciados das suas quatro estações do ano.
 Porto tri-legal,  que enquanto muiiiito lentamente se moderniza em sua infra-estrutura, vai conservando seus valores culturais latino-americanos nas rodas de mates e, sobretudo, busca recuperar os sonhos perdidos, como o da balneabilidade das suas praias e a construção do seu metrô.  Metrópole que se mobiliza com o movimento dos ciclistas por um trânsito mais humanizado; recanto do planeta onde o sol  poente edita a cada dia um novo e maravilhoso cartão postal às margens do Guaíba.
         Porto que acolheu a todos nós, natos ou filhos adotivos oriundos do êxodo rural, à deriva da  perversa má distribuição de renda deste país,  é a cidade onde ancoramos nossas vidas, para onde sempre retornamos, por mais longe que eventualmente naveguemos. É de suas noites frias e de suas tardes calorentas que sentimos falta, bem como de suas manhãs, quando derramando-se em folhas pelos seus parques e florindo multicolorida pelos jardins suspensos de suas avenidas arborizadas. 
         Porto Alegre é o nosso lugar no mundo, lugar que nos identifica e diferencia dos outros povos  do planeta; lugar que define o nosso peculiar ponto de vista, determina a essência dos nossos princípios, do nosso jeito de ser e de viver. Ser portoalegrense é saber  construir sonhos com as próprias mãos, pedra por pedra, como quem constrói um cais, é sentir-se parte das docas do cais desta cidade, é ter-se no peito um porto aberto a todos os navios,  alegres ou não.

domingo, 9 de março de 2014

FRONTEIRAS DAS APTIDÕES

            Faz de conta que havia um Criador, um ser abstrato capaz de criar tudo do nada. Um ser muito criativo, cheio de ideias  geniais para inventar designers de coisas, vegetais e animais... Ouvi esta frase quando eu, nervoso buscava a minha primeira entrevista cobrindo um evento como estudante de jornalismo, me aproximando da mesa onde os palestrantes do Fórum Fronteiras do Pensamento tomavam cerveja e conversavam descontraidamente, dando altas risadas. - Desculpem, senhores. Assisti vocês lá no Fórum, na palestra sobre “Quatro Fronteiras do Pensamento em Debate”, e precisava  fazer umas perguntinhas, não é pra sair em nenhum jornal, é apenas uma tarefa de campo de uma disciplina do primeiro semestre da faculdade de jornalismo...
            Perfeito, exclamou o teólogo que estava falando sobre a hipótese do Criador quando eu cheguei. Vejo que  nos foi enviado pelos céus o mediador para ouvir os nossos argumentos e  ponderar conclusivamente, como sendo uma tarefa de uma matéria jornalística informativa, qual das quatro fronteiras do pensamento representadas nesta mesa apresenta maior utilidade prática para o homem pós-moderno globalizado. Todos pareceram adorar a sugestão e de imediato me ofereceram uma cadeira, quando dei por mim estava sendo o alvo de convencimento daqueles renomados pensadores.
            O palestrante da Fronteira do Ativismo Social já foi organizando o  evento na mesa de bar. - O jovem estudante deverá, ao final do debate, indicar qual a fronteira e o palestrante vencedor, cujo prêmio será o de pagar a conta de toda a mesa, como uma representação simbólica do ônus que terá por ser a solução do mundo. Garçom, por favor, traga mais duas geladas e um sanduíche aberto. Seguiu com a palavra o representante da Fronteira Religiosa do Sagrado que lançou o desafio...
           No início pensei em ir anotando no meu caderninho os principais argumentos de cada palestrante, mas confesso que logo no primeiro orador percebi que eram muitas informações para pouco caderninho, e que me faltaria a rapidez de um taquígrafo para transcrevê-las. Mas quando o representante da Fronteira Científica discorreu sobre o evolucionismo das espécies,  e o representante da Fronteira Filosófica analisou os limites do pensamento humano, e de como os homens tinham criado Deus, então percebi que eles tinham escolhido o mediador errado. Na teoria, um jornalista deve ser imparcial e relatar de maneira neutra os fatos e eventos, nunca julgá-los; muito menos  indicar qual é a melhor solução para o mundo!
          Horas depois, com alcoolizados debates entre petiscos e batatas fritas, todos olharam para mim e perguntaram o meu veredicto. Até tentei demonstrar que tinha captado o essencial de cada fronteira: Na Fronteira do Sagrado, pela lei da causa e efeito, se tudo tem uma causa, qual a causa primeira de tudo?  Retroagindo indefinidamente na série de causas se chegaria ao Criador. Por outro lado, se tudo tem uma finalidade, a vida humana tem a função de prestar contas com o seu Criador no final. Faz algum sentido...
Mas a Fronteira Científica coloca este retroagir na série causal das coisas como uma evolução infindável das espécies, desde os estágios de micro-organismos até aos gigantescos dinossauros, da ameba aos complexos macacos e daí aos seres humanos.  A existência de matéria maciça poderia ser explicada pela ironicamente chamada “partícula de deus”,  surgida logo após o Big Bang criador do mundo, com a capacidade de  aglutinar os produtos subatômicos da explosão, partícula esta  que já está sendo detectada através dos novos avanços tecnológicos. Sondas espaciais rastreiam as fronteiras do universo, descobrindo a cada dia novos planetas em  bilhões de estrelas que indicam a possibilidade de não estarmos sozinhos no infinito espaço cósmico. Somos apenas poeira de estrelas! Também faz sentido...
Por sua vez, a Fronteira Filosófica percebeu, por um lado, que jamais saberemos como as coisas de fato são, pois tudo o que percebemos é mediado pelo pensamento que  é fruto das pré classificações simplificadas feitas pela mente. Do olhar, do tato, do olfato, da audição e do paladar, dos cinco sentidos as informações vão para a mente que processa os pensamentos possíveis de acordo com o banco de dados disponível: é o limite do pensamento humano. O máximo que conseguimos é imaginar o que as coisas são a partir dos dados coletados por nossos limitados sensores. Por outro lado, com o domínio científico da modernidade, filosoficamente o homem matou o deus que ele próprio havia criado para preencher o elo da “causa primeira” que faltava. Mas embora o homem-criador tenha matado a sua criatura-deus com a aceitação e vigência universal da teoria da evolução das espécies,  o homem nunca mais conseguiu se libertar da dependência desta bengala de ter um ser Divino  de apoio espiritual em vida, bem como de consolo compensatório diante do medo dos mistérios da morte, optando por uma vida de niilismo neste mundo. Faz muito sentido...
Quanto à pragmática Fronteira do Ativismo Social, que envolve a política e suas ideologias, pelo o que consegui entender, é uma fronteira que ainda tem como sua estrela  maior a democracia, prática inventada na Antiguidade Grega. Em que pese as várias contestações havidas recentemente em praças públicas de diversos países europeus, e também nos EUA e no Brasil; para uma grande parcela  da população mundial ela recém começa a ser uma aspiração real a ser conquistada em revolucionários movimentos populares de rua a partir da chamada “Primavera Árabe”. Contudo, como democracia implica em políticos eleitos (que se profissionalizam na atraente carreira de quem  pode definir seus próprios salários), como eleição envolve altos custos financeiros que exigem cooptação de capitalistas para serem patrocinadores das campanhas, o sistema democrático se transformou em meras  disputas publicitárias da venda enganosa de um produto artificialmente maquiado, no caso, o candidato ao cargo político. A superação deste impasse do sistema democrático é a Fronteira do Ativismos Social em que atuam voluntários em ONGs por todo mundo, buscando canalizar diretamente para as comunidades carentes os recursos públicos, sem passarem necessariamente pelos abutres da burocracia e sem se desperdiçarem na politicagem do democratismo. Faz muito sentido também...
Sim, e daí? - Os quatro pensadores me perguntavam levantando as sobrancelhas e arqueando os ombros – Vemos que captou o essencial de cada proposição, mas qual é o veredicto: Quem vai pagar a conta?
...Não vou me omitir da missão que me foi dada, mas  antes quero  agradecer aos senhores por esta oportunidade que para mim foi uma lição que vai mudar a minha vida. Fundamentalmente compreendi que não existe o jornalismo neutro, saquei que uma reportagem ou assume a defesa de um lado para contestar os outros, ou não é notícia, é literatura. Esta sim pode contemplar igualmente todos os pontos de vista. Assim, os senhores me fizeram perceber que estou fazendo o curso errado. Não farei sobre este encontro um relato noticioso, farei um conto literário em que somos os personagens, nele reconhecerei a utilidade das “quatro fronteiras” para o homem pós-moderno globalizado. Tanto que vou imediatamente providenciar a minha transferência do Curso de Jornalismo para o de Letras. Portanto, o que faz mais sentido é eu  me declarar o vencedor deste debate, pois nele encontrei a melhor solução para o meu mundo. Como tal, vou pedir mais uma rodada de cervejas e pagar a conta de todos vocês, o que farei com muito prazer em comemoração ao meu avançar numa nova fronteira de aptidão!



sábado, 22 de fevereiro de 2014

AS DIFERENTES IRMÃS GÊMEAS

LER dói, lesão por esforço repetitivo é uma doença do trabalho tanto quanto as dores de coluna de quem pegou na picareta abrindo valeta nos velhos tempos do Dmae. Foi preciso que ela adquirisse uma lesão por esforço repetitivo com doloridos sintomas de tendinite crônica, que se agravou criando grande dificuldade de continuar cumprindo sozinha todas as atribuições da lida diária, para finalmente reclamar de sua irmã gêmea, que passou a vida inteira se aproveitando de sua instintiva boa vontade para fazer as coisas.  Ela sabia que a irmã não fazia por maldade ou por preguiça, pois na verdade a irmã foi criada como portadora de deficiência motora, sem habilidade fina de movimentos e débil  de força para os trabalhos pesados. A Esquerilda viveu sempre como mera auxiliar e na sombra da irmã Direima, mas com a aquiescência desta.
        As duas irmãs estavam sempre literalmente juntinhas e, mais do que isso, como se fossem siamesas (não gatas, mas xipófogas), se posicionavam sempre da mesma forma, seja na mesa, na rua ou na cama, compondo um corpo unificado a se deslocar pelo mundo, sempre com a Esquerilda assumindo o lado esquerdo e a Direima a metade direita do corpo duplo. Assim, meio por brincadeira, mas também pelo cumprimento dos desígnios cósmicos do destino contido no próprio nome delas, o pessoal passou a chamá-las de irmãs Direita e Esquerda, para designarem respectivamente Direima e Esquerilda.
        Até então, antes de aparecer as patologias naturais dos corpos que atravessam o limiar que os caracterizam como idosos, a coisa funcionava bem, com a Direima (a irmã Direita) assumindo a sobrecarga de afazeres práticos e iniciativas lógicas da vida, enquanto a irmã Esquerda ficava perdida em seus devaneios e olhares distantes pela janela, sendo preciso  que fosse solicitada a sua ajuda em cada pequena tarefa que precisasse do seu auxílio. Mas agora, com a lesão e a dor crônica provocada  por praticamente carregar a  irmã Esquerda nas costas, Direima decidiu que era hora de haver uma distribuição das tarefas diárias entre as duas irmãs.
         Como a irmã Esquerilda  não havia adquirido destreza para executar sozinha a maioria absoluta das ações mais comuns e rotineiras, a irmão Direita teve que desenvolver um programa de treinamento para gradativamente ir repassando algumas atividades do seu domínio. A primeira missão transmitida foi de que a irmã Esquerda assumiria o comando do mouse sempre que estivessem no computador. No começo era uma desgraça, a seta do mouse na tela parecia uma mosca tonta sem nunca acertar o alvo onde clicar, isso quando a Esquerilda não deletava involuntariamente, por imperícia, arquivos ou trechos de textos. 
Meses depois, a irmã Esquerda descobriu que era capaz de aprender a ter habilidades para fazer as coisas que a irmã Direita fazia com tanta destreza. Com o mouse completamente dominado, tomou atitude e passou a ter iniciativas próprias de ação: abrir e fechar as torneiras, selecionar a chave no chaveiro e abrir e chavear as portas, pentear os cabelos, escovar os dentes, passar manteiga no pão e esfregar sabão durante a lavagem da louça, ao invés de, como era de costume, meramente segurar a louça para que a Irmã Direita fizesse todo o esforço. Empolgada com os progressos da irmã, a irmã Direima passou a delegar tarefas mais complexas, tais como operar o garfo com equilíbrio nas refeições domésticas e manobrar o papel higiênico nos delicados movimentos de secagem e limpeza íntima. Na sequência, entrando  na fase do treinamento das atividades de risco, a irmã Esquerda  foi iniciada no manuseio do  aparelho de depilação com lâminas e no de empunhar a faca de cozinha para picar cebolas e tomates.
         As pesquisas da neurociência comprovam que o lado esquerdo do corpo é comandado pelo hemisfério direito do cérebro, o território onde vicejam a criatividade e a intuição. Dizem que cerca de 80% do nosso dia-a-dia é ocupado por rotinas comandadas pelo lado esquerdo do cérebro, que apesar de terem a vantagem de reduzir o esforço intelectual, escondem um efeito perverso: limitam o cérebro e abrem a porta para o velho Alzheimer se instalar como um vírus no sistema mental. Consciente destes conhecimentos científicos, a irmã Direita, que se sabia comandada pelo lado esquerdo do cérebro, passou a reconhecer os malefícios que o seu instinto lógico e compulsivo de exercer domínio sobre a sua irmã Esquerda acarretou, prejudicando a vida das duas, uma por não ter tido uma cultura de desenvolver suas verdadeiras potencialidades, a outra por ter sido extremamente exigida até a exaustão doentia da dor crônica. 
Envelhecer juntas em harmonia, dividindo as atribuições, passou a ser o propósito das duas irmãs, especialmente depois de compreenderem que os desajustes havidos entre as duas não era culpa delas, era consequência lógica da concepção cultural de nossa civilização ocidental. O nosso alfabeto, por ser silábico, estimula o lobo esquerdo; os ideogramas dos orientais, utilizando símbolos, desenvolvem o lobo direito.  No idioma japonês, por exemplo, que são usados símbolos e sílabas, os dois hemisférios são estimulados no ato da leitura. A meta de ambas não chega a querer que a irmã Esquerilda aprenda a escrever, que seja  tardiamente alfabetizada no manuscrito, até porque ela já é bem alfabetizada nas escritas digitais; mas que pelo menos adquira destreza (além de poder acionar o moderno relógio ponto digital) de assinar o próprio nome com perfeição, para que possa assumir a representação jurídica comercial de ambas, assinando documentos e cheques, caso a tendinite evolua para um impedimento clínico da já esgotada irmã Direima.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

À Beira do Dilúvio

            Neste verão tórrido de temperaturas acima de 40 graus, sentimos do Ipiranga às margens plácidas,  como um povo heróico o calor e o cheiro retumbante saído de nossas próprias entranhas em forma de esgoto a céu aberto. O antigo “Arroio da Ipiranga” é parte vital do corpo de Porto Alegre, como se fosse seu intestino grosso,  feito transparente para que toda a população possa monitorar a saúde da sua cidade. Assim acompanhamos os esforços dos órgãos de saneamento público no interminável combate às escleroses: às formações de ilhas férteis ao longo do canal, onde brotam árvores e ótimas pastagens aproveitadas pelos cavalos dos nossos carroceiros em extinção. 
           O Arroio Dilúvio adquiriu esta denominação, imagino,  em menção à passagem  bíblica, diante do temor generalizado de que ele venha realmente a transbordar de tal maneira que inunde toda a cidade. Do nascente ao poente, este riacho é o trajeto, não só dos dejetos, mas também é o caminho do próprio sol na sua ronda diária pela cidade e, igualmente ao arroio, é no manancial do Guaíba que o sol vai banhar-se e espelhar-se após mais um dia de trabalho, dando um colorido de cartão postal a este renomado pôr-de-sol.
           Talvez a minha geração tenha sido a última a ainda pegar peixes no riacho da Ipiranga, cascudos é claro, mas ainda havia vida nele, quando ainda era um arroio. Com o aumento populacional acumulando-se ao seu redor nos últimos quarenta anos, alem do riacho virar valão, o Rio Guaíba virou Lago sem praias; mas não há só pardais eletrônicos pousados nas esquinas de suas pontes, em seu leito ainda sobrevoam lindas garças brancas. É a resistência da natureza sinalizando que, com as obras de esgotamento cloacal que estão em desenvolvimento pelo Dmae, um dia toda a orla da cidade poderá voltar a ser um belíssimo balneário. Resta-nos ainda a esperança que um dia haja a reintegração completa do povo portoalegrense com a sua essência de açorianos argonautas nas margens do Guaíba, tanto os que vivem por cima quanto os que vivem embaixo das pontes da Av. Ipiranga.
          Mas enquanto isto não se realiza, precisamos continuar convivendo com os sintomas dos organismos intestinais da nossa cidade expostos pelo Arroio Dilúvio, inclusive quando ele sangra, misteriosamente tingindo-se todo de vermelho, como ocorreu no ano 2001, sem que ninguém conseguisse explicar se o arroio havia cortado os pulsos ou se foi a placenta da bolsa da esperança que havia se rompido, abortando uma maré vermelha de poluição. Enquanto não houver a separação absoluta do esgotamento público cloacal do pluvial para o devido tratamento dos efluentes, vamos continuar trilhando o esgoto a céu aberto do nosso “Caminho do Dilúvio”.
        Na última década evoluímos muito como metrópole sem metrô: seremos sede de jogos da Copa do Mundo de Futebol em 2014! Evoluímos tanto que, apesar da falta de mobilidade urbana de transportes públicos, razão do movimento nacional contra os “20 Centavos”, agora já podemos fazer exercícios aeróbicos (sem respirar fundo) pedalando ao longo dos modernos trechos de ciclovia da Avenida Ipiranga. Na Copa poderemos revelar ao mundo o nosso particular charme turístico internacional, o de vivermos à beira de um Dilúvio que se mantém biblicamente nos ameaçando de transbordar e, como castigo pela merda que fizemos com o espaço urbano sem planejamento, nos inundar na lama de nossas próprias fezes.