terça-feira, 3 de março de 2026

O CONTISTA DALTON TREVISAN: O VAMPIRO DE CURITIBA



Talvez em função de eu ter acessado tardiamente o hábito de ler literatura de ficção, tardio por eu ter sido criado em internatos públicos da FEBEM sem acesso a uma biblioteca, sempre busquei dar prioridade às obras clássicas, àquelas recorrentemente citadas pelos meus intelectuais favoritos, os quais fui selecionando durante minha lenta trajetória de leitor, visando sempre preencher essa lacuna literária na minha formação humanística.

Assim, depois de iniciar minhas leituras lá com os romances do Vitor Hugo, Eça de Queiroz, Jorge Amado e Machado de Assis; fui avançando para Guimarães Rosa, Hermann Hesse, Kafka, Garcia Márquez e Saramago. Ao mesmo tempo fui lendo a literatura poética de Shakespeare, Dante, Camões, Fernando Pessoa, Neruda e Drummond. Depois migrei para a leitura dos gregos, desde Homero às tragédias gregas e aos filósofos sempre citados , Platão e Aristóteles, até os filósofos pré-modernos como Hegel e Nietzsche.

Somente agora, em torno dos meus setenta anos de idade, após conseguir finalmente ler os clássicos russos, Dostoiévski e Tolstói, bem como ler Ulisses de James Joyce, é que me dei por satisfeito com a minha ainda precária cultura adquirida sobre os clássicos canônicos da literatura universal.  Pelo menos ninguém mais me impressiona com suas citações pseudo eruditas.

Mas também somente agora percebi a enorme lacuna que ficou na minha formação sobre a literatura contemporânea do meu tempo. Isso por que sempre fui muito seletivo e nunca quis correr o risco de desperdiçar o meu pouco tempo disponível dedicado à leitura em obras possivelmente efêmeras. Sempre preferi investir o meu tempo de leitura nas obras já consagradas como fundamentais na história da literatura mundial.

Antes tarde do que nunca, mas a partir de agora decidi que dedicarei o meu tempo de leitura aos escritores do meu tempo, de preferência ainda vivos. Começarei pelos autores de contos: mas quem são os melhores contistas brasileiros atuais? Quem devo ler primeiro? Perguntei ao Google e o oráculo me respondeu: Dalton Trevisan!

Esse autor eu conhecia apenas de nome e o confundia equivocadamente como sendo ele o escritor Lauro Trevisan, best-seller de literatura de neurolinguística e autoajuda. Mas quando pesquisei agora eu me surpreendi com o currículo de Dalton Trevisan, consagrado  como sendo um lendário autor de contos, que já está com 99 anos de idade, e que já conquistou, entre outros prêmios, várias vezes o Prêmio Jabuti (nacional) e até um Prêmio Camões (Portugal-Brasil), o mesmo que o Chico Buarque ganhou em 2023.

 Perfeito, fui na praça da 70° Feira do Livro de Porto Alegre, resgatada da enchente, e comprei o livro Antologia Pessoal de Dalton Trevisan, com uma seleção que ele fez pessoalmente de 94 contos. Imagino que possivelmente seja a sua antologia definitiva às vésperas do seu centenário de vida.

Depois disso, casualmente ou por obra do destino para me estimular a escrever esta crônica, encontrei na revista piauí n° 213 de junho de 2024 a matéria intitulada: O VAMPIRO NO PARTAMENTO, justamente sobre Dalton Trevisan. A reportagem de Leonardo Fuhrmann narra que Dalton Trevisan lançou seu primeiro livro de contos em 1943, antes de eu nascer, e morou por 68 anos numa casa simples após o seu casamento em 1953.

A casa, com aparência de abandono, com janelas para a calçada sempre fechadas, ajudou a reforçar a imagem de Trevisan como o Vampiro de Curitiba, que é o título de um livro seu. Isso por que ele vive recluso e não recebe visitas, não dá entrevistas e nem sequer comparece para receber suas premiações literárias. Não saiu de sua reclusão nem mesmo para receber o Prêmio Camões em 2012, o mais importante da língua portuguesa, quando estava com 87 anos.

Segundo sua amiga e secretária pessoal, Faversani, atualmente o autor não tem escrito novos contos. Ele retrabalha lapidando suas histórias antigas, reunidas em mais de cinquenta livros,  e organiza o seu acervo, bem como participa de edições de coletâneas de contos.

Dalton Trevisan atuou como repórter de polícia na juventude. Algumas crônicas de suas reportagens policiais foram retrabalhadas em contos mais tarde.

Desde o início de sua carreira Trevisan publicou “Cadernos”, espécie de fanzines em formato de bolso, contendo mais de um conto, para divulgar seus escritos, os distribuindo gratuitamente. Mesmo após atingir sua notoriedade, ele sempre continuou lançando seus “Cadernos de Contos”, em média produz seis fanzines desses por ano, com uma tiragem de cerca de trezentos exemplares e faz a distribuição gratuita para bibliotecas, bares, cafés e amigos.

A última coletânea de contos inéditos que Trevisan publicou foi em 2014. Certa vez, solicitado para que enviasse um conto inédito para um livro de coletânea, o escritor respondeu que não podia atender ao pedido, apesar de achar a ideia de fazer um conto novo tentadora. Disse que não podia por que “com essa carcaça esbodegada, tudo o que escrevo é com dificuldade, o raciocínio lento, a mão pesada”. 

Diante de um pedido para dar uma entrevista para a publicação do seu livro, Trevisan respondeu para o editor: “Pode dispor dos meus continhos, mas a entrevista não pode ser. Não tenho nada a dizer fora dos meus livros, sou tímido. Escrever meus continhos, sim; falar, gravar, posar, nunca e não¨.

Desde quando era casado, e mesmo depois de viúvo quando passou a viver sozinho, Trevisan sempre escreveu numa edícula que mandou construir no fundo do grande quintal da casa, que ele chamava de “cabana”, cercada de árvores plantadas por ele mesmo, para garantir um refúgio e a privacidade do escritor ermitão.

A mulher de Trevisan, Yole Maria, morreu em 1998, no mesmo ano que morreu sua filha Isabel. Sua outra filha, Rosane, faleceu em 2023. Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba, tem duas netas, ambas filhas de Isabel.

Nos últimos anos que o Trevisan morou na casa, além da deterioração do prédio que se acelerou, passou  a sofrer invasões do seu quintal por usuários de drogas. Em 2021 decidiu se mudar para um apartamento no Centro de Curitiba. O imóvel foi vendido para uma corporação que aceitou a condição legal de manter a casa refúgio do Vampiro de pé. Porém, a cabana edícula foi demolida antes da venda em 2022 pelo próprio escritor, por estar infestada de cupim. No local vão construir um prédio de dez andares de apartamentos e a casa será restaurada, como um presente dos compradores para Curitiba usufruir de algum modo em homenagem ao famoso escritor curitibano de contos.

Ao contrário dos vampiros da ficção, Dalton Trevisan acha que sua eternidade não depende de haver um castelo imemorial e é prematura qualquer homenagem em vida. Se fosse só por ele, a casa poderia ser demolida.

A capital paranaense de fato é parte indissolúvel da obra de Trevisan, é também um de seus alvos preferenciais. Segundo Galindo, um curitibano tradutor de Ulysses de James Joyce, as críticas do autor não são à cidade em si, mas por sua representação de estilo europeu como um produto de marketing. O tradutor compara a relação do escritor irlandês com Dublin à de Trevisan com Curitiba, pois o escritor curitibano foi um leitor devoto de Joyce e entendeu o jogo do irlandês e, sem imitar, fez o seu jogo com a cidade. Para ele ambos têm uma relação de amor e ódio com suas respectivas cidades, mas que ao mesmo tempo representam toda a obra deles. Avalia que a resistência de Trevisan à imagem atual da cidade de Curitiba não deriva do saudosismo. É por haver uma imagem artificial da cidade e vai doer na alma dele se a sua casa for incorporada a esta imagem falsa para turista ver, o que pode ser um golpe duro e uma traição à cruzada de uma vida inteira do Vampiro de Curitiba.

No seu conto Em Busca da Curitiba Perdida, o escritor diz que viaja mais na Curitiba da periferia operária, onde viaja com amor, do que na da Academia Paranaense de Letras, na Curitiba para inglês ver, sem pinheiro ou céu azul.

                                                                                                                                         11/11/2024

                                                                                                                                       Celso Afonso Lima


1 - Obituário: Dalton Trevisan faleceu em 09/12/2024, menos de um mês após eu escrever essa crônica sobre a minha descoberta do fabuloso escritor contista vivo. Morreu com 99 anos, às vésperas de completar o seu centenário de vida. O Vampiro de Curitiba seguirá nos assombrando por muito tempo como uma inspiração literária.

2 – Espólio: Em uma nova matéria da revista Piauí, de novembro de 2025, fiquei sabendo que as duas únicas netas e herdeiras do Dalton Trevisan, Katiuscia e Natascha, moveram uma ação judicial contra a secretária do falecido escritor. As netas estão questionando no espólio os dois planos de previdência privada milionários que o Dalton deixou tendo como beneficiária a sua jovem auxiliar que o assessorou nos últimos anos de vida. A secretária Fabiana Faversani herdou também  o controle sobre o catálogo das obras publicadas do autor, com a missão de manter seus mais de 60 livros em circulação e chegando nas pessoas após a sua morte. As netas questionam se Dalton Trevisan estava em pleno domínio das suas faculdades mentais em 2024 quando fez os aportes financeiros milionários nos planos de previdência privada, poucos meses antes do seu falecimento. O espólio do Vampiro de Curitiba se tornou mais um de seus famosos contos daltonianos, considerado o maior contista da língua portuguesa.

                                                                                                                                     03/03/2026

                                                                                                                                  Celso Afonso Lima

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A QUEDA DO CÉU YANOMAMI




 TRAILER  A QUEDA DO CÉU


RESENHA DO FILME A QUEDA DO CÉU  ( YANOMAMI)

O filme documentário “A Queda do Céu: Palavras de um Xamã Yanomami”, é baseado no livro organizado por um antropólogo francês a partir das falas do xamã yanomami Davi Kopenawa, a maior liderança mundial indígena em defesa da floresta amazônica.

A queda do céu é uma previsão da cosmologia mitológica da cultura da nação yanomami que descreve o recomeço do mundo há milênios atrás, após uma Queda do Céu de uma Era anterior em que o céu foi tecido novamente pelos espíritos protetores dos nativos da floresta. Descreve que agora A Queda do Céu, em consequência da destruição das florestas e poluição dos rios pelos madeireiros e garimpeiros ilegais, poderá ser definitiva com a morte não só dos povos originários como também do povo branco invasor e destruidor das florestas.

O documentário, lançado inicialmente na Europa, é um desesperado grito mundial de pedido de socorro feito por Davi Kopenawa durante o governo da extrema-direita bolsonarista que estimulava e protegia as legiões de invasores madeireiros e de garimpeiros de ouro contaminadores dos rios por mercúrio na Amazônia.

O mito da Queda do Céu eu compreendo como o rompimento da camada de gases atmosfera que envolve a Terra, a partir dos buracos na camada de ozônio na estratosfera causados pela poluição e com o aquecimento global,  com o derretimento das calotas polares pelo efeito estufa devido ao uso de combustíveis fósseis e pelo desmatamento das florestas em pé que capturam esses gases.

Portanto, a cosmologia da Queda do Céu Yanomami interpreto como sendo um mito que representa a queda das camadas de gases da atmosfera que possibilitam a vida pelo ar respirável que proporcionam em torno do planeta Terra. Camadas estratosféricas que nos protegem de radiações solares e que, por reflexos da luz solar, formam a visão que temos de um lindo céu azul suspenso que está por cair sobre nossas cabeças. Para além desse céu azul é o vácuo escuro e frio do espaço sideral dos planetas e das estrelas.

A Queda do Céu, ou O Fim do Mundo, está sendo anunciado não só pelo povo originário Yanomami, mas também pela comunidade científica atômica mundial através do também mitológico Relógio do Juízo Final, o qual em 2026 foi atualizado como faltando pouco mais de 1 minuto para a meia-noite do Apocalipse fatal. O tempo urge como nunca antes, mas em vão, pois os países poderosos não abrem mão de explorarem a natureza para lucrarem até o último tostão.

                                                                                                                19/02/2026

                                                                                                            Celso Afonso Lima


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

 


HAMLET, O PRÍNCIPE DA DINAMARCA - William Shakespeare

(Resenha)

A propósito do filme que assisti, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, o longo e monótono filme com oito indicações ao Oscar, avalio que a melhor parte foi a encenação final num teatro medieval da peça que o personagem William Shakespeare escreveu e atua como ator. Essa peça é a famosa tragédia HAMLET, que teria sido inspirada na sua tragédia pessoal, após a morte narrada no filme do seu filho Hamnet. Depois de assistir ao filme fiquei mobilizado para reler mais uma vez a peça Hamlet de Shakespeare, livro que tenho na minha biblioteca pessoal. Fazer uma resenha dos livros clássicos lidos por mim é um exercício literário que gosto muito de fazer. Eis a minha resenha:

 A peça inicia com o príncipe Hamlet melancólico pela morte repentina do seu pai, o Rei Hamlet, e também porque, em menos de dois meses depois do seu falecimento, a rainha sua mãe casou-se com o irmão do rei morto: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca!”.

A trama da tragédia se desenrola a partir do aparecimento do Fantasma do Rei Hamlet, pai do príncipe Hamlet, para informar ao filho que a sua morte não foi por uma picada de serpente, como a versão mentirosa adotada pela corte, pois a verdadeira serpente foi o irmão do rei que colocou veneno em seu ouvido enquanto ele estava dormindo: “Assim, dormindo, pela mão de um irmão, perdi ao mesmo tempo a coroa, a rainha e a vida.”

Então o príncipe Hamlet comenta: Há mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia. Depois desta revelação do Fantasma do Rei de sua morte ter por assassinato, o príncipe Hamlet assume um comportamento alucinado blasfemando contra tudo e todos. Ser ou não ser – eis a questão. Pegar em armas contra o mar de angústias ou morrer, dormir. O obstáculo são os sonhos que hão de vir no sono da morte. Quem aguentaria fardos numa vida servil senão pelo terror de alguma coisa após a morte?

O Rei e a Rainha tentam entender por que Hamlet se acometeu desse estado de loucura, e desconfiam que seja por estar apaixonado por Ofélia, cujo pai Polônio proibiu o namoro dela com o príncipe, por achar que ele apenas queria abusar da ingenuidade e pureza da filha. O novo Rei e a Rainha passam a espionar Hamlet em seus longos monólogos delirantes. Em um encontro do príncipe com a rainha sua mãe, ela havia instruído o serviçal Polônio, seu conselheiro, a ficar atrás da cortina escutando a conversa para auxiliar no entendimento da razão da loucura de Hamlet.  Porém o príncipe percebeu que havia alguém atrás da cortina: O que isso? Um rato? Num lance com o florete dá uma estocada através da cortina e mata Polônio, o pai da Ofélia.  Hamlet comenta: Eu não estou louco de verdade, estou louco somente por astúcia.

Ofélia também passou a delirar enlouquecida depois da morte do seu pai, cuja causa não foi esclarecida pela corte. Laertes, o irmão de Ofélia, voltou do exterior com a notícia da morte do pai. Uma desgraça marcha no calcanhar de outra: Ofélia morreu afogada no riacho. Laertes comenta ao saber da que sua irmã morreu afogada: Já tens água demais, pobre Ofélia. Por isso contenho minhas lágrimas.  O Rei e a Rainha informam Laertes que foi Hamlet quem matou o pai dele e de Ofélia, que o príncipe  é o causador da desgraça de sua irmã. E orientam Laertes, que é um exímio espadachim, para que realize seu desejo de vingança lutando com Hamlet nas regras da esgrima, porém colocando veneno na ponta de seu florete para que o mínimo toque mate seu adversário. E por via das dúvidas, o Rei colocará veneno numa taça de vinho comemorativo para oferecer a Hamlet quando ele estocar Laertes.

No entendimento popular a morte de Ofélia foi por suicídio, mas a corte adotou a versão de que foi por ela ter caído do alto do galho de um salgueiro à beira do riacho. Assim ela pode ser enterrada numa sepultura cristã.

Numa cena em que os coveiros estão cavando a cova para Ofélia, um deles encontra um crânio que o coveiro identifica como o do Bobo do Rei. Hamlet pega o crânio e conversa com ele: Olá, eu o conheci, mil vezes me carregou nas costas!   Onde andam agora tuas piadas, tuas cambalhotas e teus lampejos de alegria que provocavam gargalhadas?  E agora fede assim!

Nisso chega no cemitério o Rei, a Rainha e Laertes com o corpo de Ofélia acompanhados com padres e procissão.  Só então Hamlet fica sabendo que a pura Ofélia morreu, ele salta dentro da sepultura e pede para enterrarem os dois juntos, o vivo e a morta.   Laertes fica indignado e começa a lutar com Hamlet. Durante a luta o príncipe revela que amava Ofélia. No meio da luta o Rei oferece um brinde com a taça envenenada para Hamlet, mas ele não aceita e prefere continuar lutando. Nisso a Rainha sua mãe bebe da taça envenenada e  oferece ao seu filho  que outra vez rejeita. Laertes fere Hamlet com seu florete com veneno, na violência deste golpe as espadas saltam no chão e são trocadas e Hamlet fere Laertes também com o florete envenenado. A Rainha morre, e Laertes cai e avisa que ambos vão morrer, pois Hamlet também foi estocado pela mesma arma que ele. Então Laertes percebeu a trama e acusa o Rei como sendo o culpado por tudo. Hamlet então fere o Rei com a arma envenenada, dizendo: Toma Rei maldito, assassino, segue minha mãe. O Rei morre.

Laertes parabeniza Hamlet dizendo que o Rei teve o que merecia, e que trocava o perdão do príncipe pelo seu perdão: “Que a morte de meu pai não pese em ti, nem a tua morte pese em mim!   Laertes morre.

Hamlet se despede assim em sua derradeira fala: O Céu te absolva! Vai, eu te sigo. Estou morto, mas você Horácio que vive explique a minha causa fielmente àqueles que duvidem, para que as coisas não fiquem assim ignoradas. O resto é silêncio. Hamlet morre.

No fim morreram todos os personagens protagonistas da tragédia de Shakespeare, numa guerra de todos contra todos, restando apenas um personagem secundário da peça com esta missão de contar para a prosperidade a história de Hamlet, o príncipe da Dinamarca.

A propósito da prosperidade, na virada de 2025 para 2026 houve uma polêmica que viralizou nas redes sociais no Brasil, acumulando milhões de visualizações, com a música “The Fate of Ophelia” da Taylor Swift. Surgiu uma versão da música em português, criada por inteligência artificial, com o título “Sina de Ofélia”, que utilizou sem autorização as vozes clonadas dos cantores brasileiros Dilsinho e Luisa Sonza. A música com o tema da tragédia de Ofélia de Shakespeare entrou no Top 50 do Spotify no Brasil antes de ser derrubada´.

Em Hamlet a Dinamarca está ameaçada de ser invadida pela Noruega que quer retomar parte de seu território e, no final, após a morte de toda a família real dinamarquesa, o Príncipe Fortinbrás da Noruega assume o trono da Dinamarca sem resistências. Atualmente o Trump ameaça invadir a Groelândia para os EUA se apropriar deste território da Dinamarca. Encontrará Trump maiores resistências dinamarquesas do que Fortinbrás?  

                                                                                                             04/02/2026 – Celso Afonso Lima

sexta-feira, 10 de março de 2017

GAME DE RELACIONAMENTOS

                Nunca fui de jogar games no celular, sempre preferi gastar o tempo no Facebook ou no Twitter, com posts e News dos meus contatos. Mas estava de bobeira numa tarde chuvosa de verão, já tinha percorrido todas as minhas opções costumeiras, e resolvi acessar um link denominado Game de Relacionamentos. Depois de uma breve exposição de sua dinâmica, tive que definir o meu perfil de busca de relacionamento: Romântico ou predador? Relação eventual ou namoro virtual? Namoro sério ou só pra transa sexual? Transa virtual ou real?... Busca relacionamentos heterossexuais ou homossexuais ou qualquer um deles?...
                Meio assustado defini meu perfil e o game me passou para a etapa seguinte de entrada no jogo, que consiste na escolha do meu avatar, aquele personagem que será eu se relacionando com os demais personagens no ciberespaço. Feito isso, o meu avatar assumiu o controle das nossas vidas, e apenas me perguntava, como a seu subconsciente, o que é que queríamos fazer: Vamos sair ou ficar em casa jogando este game? Ok, onde vamos: Passear no Parque ou na Orla da Praia ou é de noite e vamos numa danceteria ou vamos num barzinho da Cidade Baixa ou vamos entrar num site de relacionamentos dentro deste game?...
                Curioso, sugeri ao meu avatar que fôssemos a uma danceteria, pois já faz muito tempo que não danço. Então ele nos levou num lugar que me pareceu o Chips, justamente o último lugar em que dancei alguns anos atrás (Será que o game espionou minha vida online e me localizou pelo GPS?). Entramos, pedimos um Chopp e ficamos no balcão observando o púbico nas mesas e os pares animados na pista de dança. Então o avatar rastreou uma mulher sentada sozinha, que ele identificou como preenchendo o perfil de minha preferência. Sempre com o seu celular na mão, ele enviou uma mensagem via bluetooth e ela o procurou com os olhos até identificar o autor do envio e sorriu como que consentindo com a nossa  aproximação... De imediato ele a convidou pra dançar e dançamos até suar a roupa, quando sugeri ao avatar trocar a trilha sonora de bate-estaca para um dois-pra-lá-dois-pra-cá juntinhos...
                Meu avatar, muito desinibido, coisa que eu jamais fui, aproveitou o clima romântico da nova trilha sonora e a disposição da moça personagem do game, e passamos a trocar carícias e beijos no meio do salão. Entusiasmado, como seu inconsciente malicioso, sugeri que o avatar a convidasse pra sair e irem pra um lugar mais calmo... Ele topou e ela também, fomos para um motel...
                Na entrada do motel, porém, havia uma tabuleta explicando que para acessar ao nível seguinte era preciso comprar o game completo, pois este disponível no celular era apenas uma versão demo: para continuar digite o número do seu cartão de crédito... Como nunca fui de jogar games no celular e muito menos de colocar o meu cartão de crédito em sites suspeitos de clonagens, fiquei do lado de fora do motel e não fiquei sabendo como as coisas aconteceriam com tanto realismo lá dentro daquele portal.

09/03/2017

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

MONOGRAFIA DA FELICIDADE CONJUGAL

Estou completando 22 anos de casado. Que a felicidade conjugal não é um estado permanente, como induziam os contos de fadas com o clássico final de “viveram felizes para sempre”, todos aprendem rapidamente na primeira relação amorosa real que vivenciam. A questão que se coloca aqui é a de questionarmos os poetas que tanto falam de amor, para sabermos quantitativamente por quanto tempo se é feliz conjugalmente. Com este estudo queremos saber se o estado de felicidade ocorre na maioria dos dias ou se, ao contrário, o refrão “felizes para sempre” se refere à minoria dos dias de nossas vidas afetivas em comum.
 Antes de podermos efetuar esta análise precisamos delimitar as fronteiras internas que caracterizam estágios específicos e diferenciados das relações afetivas: 1) – O estágio da paixão; 2) – O estágio de adaptações e instabilidades; 3) – O estágio do amor serenamente eterno. O universo que interessa como objeto deste estudo  é o estágio de adaptações e instabilidades, uma vez que no estágio da paixão a sensação de  felicidade é mais permanente por estarmos  dopados pelas endorfinas e que, no estágio do amor serenamente eterno, geralmente prevalecem mais os costumes adquiridos a custo de muito sofrimento no processo de adaptação, onde não sofrer passa a ser sinônimo de felicidade.
Definida caracterização genérica do nosso campo de pesquisa, é preciso estabelecer os parâmetros que identifiquem a população alvo para a aplicação do “questionário” de coleta de dados. De acordo com a sabedoria popular, que tem seus fundamentos em experiências seculares da humanidade (e os estudos psicológicos conjugais os confirmam), há notoriamente uma chamada “crise dos sete anos” em que muitos casais se separam e outra crise aos dez anos de convívio. Para fins práticos vamos adotar como parâmetros do estágio de adaptações e instabilidades do nosso grupo de estudos os casais que tenham entre sete e doze anos de relacionamento afetivo-amoroso.
 Nosso objeto de investigação, portanto, é definido como casais em permanente “estado de crise”. Em um grupo amplo destes casais, todos de classe média, fizemos uma sondagem expedita, perguntando simplesmente qual é a relação entre a quantidade de dias ruins, dias regulares e dias ótimos na relação do casal, e qual o critério que utilizam para efetuar esta avaliação de qualidade. O resultado desta sondagem, que adotamos como nossa hipótese inicial, foi surpreendente: 3 dias ruins e 3 dias regulares para 1 dia ótimo na semana. Quanto aos critérios para esta avaliação, sistematizamos que em geral os casais relacionavam como ruins aqueles dias em que os corpos e os olhares estavam se repelindo (repulsão), como dias regulares aqueles em que os corpos e olhares estavam indiferentes (neutros) e como dias ótimos aqueles em que os corpos e os olhares estavam se atraindo (atração), nos quais havia troca de carinhos, ereções e ou sexo com orgasmo unilateral ou de ambos.
Deste objeto de investigação selecionamos um grupo mais restrito para aplicarmos o instrumento de coleta de dados, o qual consistia em anotar diariamente numa planilha como cada um avaliava o seu dia de convivência conjugal, segundo os critérios sistematizados. A pesquisa se desenvolveu ao longo de quatro meses (16 semanas), buscando agregar um perfil bem significativo do comportamento médio dos casais.
Como resultado da aplicação deste instrumento, pudemos quantificar dois aspectos inter-relacionados que constituem a sensação de felicidade conjugal, quais sejam, o humor e a sexualidade do casal. No aspecto do humor, constatamos uma média de 28% dos dias como em estado de repulsão, 35% como dias neutros e 37% como dias em estado de harmonia e atração conjugal. No aspecto da sexualidade verificamos uma média total de 24 relações sexuais por casal no período, o que implica uma média de 1,5  relações sexuais por semana, sendo que em 70%  dos atos sexuais houve orgasmo tanto masculino como feminino, e  em 30% houve apenas o orgasmo masculino.
A conclusão deste ensaio ficcional de monografia sobre a felicidade conjugal contrariou a hipótese inicial, resultante da sondagem expedita que indicava que o relacionamento afetivo do sujeito da investigação apresentava 3 dias ruins e 3 dias regulares para 1 dia ótimo na semana. Verificou-se que esta relação está bem mais equilibrada, havendo um ligeiro predomínio da quantidade de dias neutros (35%) sobre os dias de repulsão (28%) e, principalmente, invertendo a hipótese inicial, com a predominância dos dias felizes de atração (37%) sobre os demais estados de humor da relação afetiva. Verificou-se que a relação conjugal é quase de um dia ruim, para um regular e para um ótimo.
Por fim, voltamos à questão colocada inicialmente, de se saber quantitativamente por quanto tempo se é feliz na vida conjugal, isto é, se o estado de felicidade ocorre na maioria dos dias ou se é ao contrário. O clássico “felizes para sempre” constatamos que não se realiza na maioria do tempo, pois que se verificou que a felicidade ocorre em 37% dos dias. Mas a questão inicial também não pode ser respondida como se a felicidade ocorresse na minoria do tempo, cerca de um terço dos dias apenas. Seria preciso considerar a perspectiva do estágio seguinte das relações, o do amor serenamente eterno. Nesse estágio, para o qual todas as relações longas se dirigem inexoravelmente, os estados neutros de humor não constituem sofrimento e logo não podem ser computados como o oposto da felicidade.
Portanto, nesta perspectiva a longo prazo, estatisticamente os dias felizes realmente passam a ocorrer na maioria no tempo da vida conjugal, o que justifica metaforicamente o encantado final feliz: E viveram felizes para sempre...na trilha dos ajustes intermináveis que levam ao amor serenamente eterno.

A Mulher do Poeta está no Brechó, espie aqui!




terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A CONQUISTA DA REDENÇÃO

-Com licença, posso sentar?... Bonito dia!...O banco de praça é o melhor local para percebermos a primavera. Mas também não é em qualquer praça, pois é preciso que haja jardins para florirem, árvores e pássaros. Lamentavelmente a maioria de nossas praças, hoje em dia, não têm nem bancos. As gramas e capins são o máximo de contato com o verde que os modernos urbanistas planejam para as nossas crianças... Peço que me desculpes, mas nem sempre sou tão falante assim. Em verdade sou até bem calado, tímido mesmo. Talvez seja a primavera e este céu de brigadeiro que, especialmente hoje, me trazem lembranças dos meus primeiros passeios por este parque. Quando criança vinha em companhia da minha mãe para ver os bichos do mini-zoológico. Eu era louco pelos macacos, por andar nos pedalinhos do lago e por dar pipoca para as carpas. Era tempo dos bondes ainda; parece mentira, mas já passei muitas vezes de bonde por aqui. Havia uma rua que atravessava o parque por ali, na altura da   República, desde a João Pessoa até a Oswaldo Aranha. Depois construíram o Túnel da Conceição, o homem foi à lua, os bondes sumiram, e eu passei a vir neste parque para alugar bicicleta para aprender a andar...
 -Talvez eu esteja sendo chato, inoportuno até. Mas alguma coisa me diz que o teu coração está triste, carente de um papo louco para descontrair. Eu sei bem do que são capazes as tristezas desta vida, por isto mesmo aprendi a buscar a mensagem positiva das histórias contadas. Sabe, na minha pré-adolescência não tive nenhuma namorada, não era esta facilidade de hoje. A gente tinha que se virar literalmente sozinho. Como estimulante visual costumava frequentar, nesta época, aquele gramado com arbustos que fica lá, entre o Auditório Araújo Viana e o chafariz, para ver os casais de namorados que, aos domingos, transformavam aquele recanto na Praça dos Prazeres Amorosos. Embaixo de cada arbusto hospedava-se um casal, como se fossem motéis ao ar livre, sem a privacidade necessária para irem às últimas consequências. Depois, já adolescente, vinha para a Redenção nos fins de semana para caçar namoradas. Nunca fui muito eficiente nisto, mas foi aqui que conheci a menina com quem tive a minha primeira transa. Foi uma coisa meio atrapalhada, meio acidentada, mas que finalmente aconteceu. Não aguentava mais me virar sozinho! Nesta época também jogava bola nos campinhos de areião do Ramiro Souto, nas típicas peladas do pessoal que ia chegando e se escolhia "tantos pra cada lado". Ramiro Souto é nome oficial daquele parque esportivo que tem lá do lado do Auditório Araújo Viana, perto do parquinho de diversões. Lembro muito bem de duas figuras lendárias, operários da recreação pública, que trabalhavam naquele parque: O Marechal, que era o instrutor da garotada, e a Tia, uma querida preta velha que acompanhava os velhos e os novos frequentadores...
-Não penses que toda esta conversa é apenas uma cantada desajeitada de um quarentão numa linda mulher triste num banco de praça, é muito mais. Este é um momento mágico e pré-destinado astrologicamente, o destino nos reuniu aqui. Como lembraremos deste momento, quando formos velhinhos, se nossos caminhos se unificarem? E se nossos caminhos nunca mais se cruzarem, será que lembraremos deste momento?... Sabe, há momentos em que o mundo parece rodar mais rápido. Foi o que aconteceu a partir da minha adolescência, veio o movimento hippie e me arrastou: Woodstock, drogas e rock-in-roll. Assim mesmo, quando não estava com a mochila nas costas e o pé na estrada, vínhamos curtir a lua e tocar violão nestes bancos da periferia da Redenção, nosso Central Park, uma verdadeira conquista urbana da comunidade. A violência era menor, não tínhamos medo da noite. Na madrugada íamos comer um cachorro quente especialíssimo no "Zé do Passaposte", lá na ponta do Mercadinho do Bom Fim. Tudo na maior "paz, amor e liberdade"...
 -Depois, tu sabes, fomos ficando iguais aos nossos pais, responsáveis e tristes pelos bancos das praças da vida. Casei. Não sei se é este o teu problema, mas foi o meu durante um longo tempo. Evidente que houve um período bom em que vínhamos juntos à Redenção, ao Recanto Chinês, e namorávamos acintosamente em público. Com o tempo não namorávamos mais nem na intimidade, apenas saciávamos nossos apetites biológicos. Sem fé em seres superiores, busquei consolo na militância política. Época da redemocratização do país e da efervescência sindical, quando realizamos grandes assembleias dos municipários no Araújo Viana. Inclusive houve uma assembléia com a presença do último prefeito nomeado pela ditadura, o João Dib,  que ficou muito surpreso ao ser enfrentado e saiu literalmente corrido do auditório. Na campanha eleitoral da primeira eleição direta para governador o Brique da Redenção já se constituía num pólo de aglutinação das vanguardas políticas da cidade, onde concentrávamos nossas atividades de agitações dominicais...
-Foi por ali, também, nos áureos tempos do Bar Escaler, que assisti pela primeira vez um casal homossexual masculino, aos longos beijos de língua, naturalmente, em uma mesa ao lado... Seus olhos são verdes? Castanhos?! São bonitos, expressivos. Seu sorriso também, é contagiante. Deves sorrir mais freqüentemente. Tudo bem, não precisa encabular. Sinceramente confesso que estou nervoso, não consigo parar de falar e, ao mesmo tempo, não consigo falar o que realmente eu gostaria de te dizer... Sabe, havia um mini-zoo que ficava lá na beira dos prédios da faculdade. Durante o meu curso de engenharia, nos recreios e nos períodos vagos das aulas de química e física, costumava vir fumar curtindo os animais no parque. Mas concluíram que lá havia muita poluição e que o tráfego dos veículos prejudicava a saúde dos bichos e, por isto, sumiram com os bichos do Parque da Redenção, dito Farroupilha. Aquele local antigo era interessante pelo fato de permitir que as crianças vissem bichos de verdade fora dos seus games e que os passageiros dos ônibus pudessem observar, diariamente, macacos, araras e lobos antes de irem para o trabalho...
- Não és casada? Pois eu já fui. Ainda bem que aprovaram o divórcio neste país, pois assim podemos repetir o erro até acertar, até encontrarmos a outra metade, a alma gêmea complementar. Apesar de nem se usar mais casar, resta sempre o recurso do divórcio para quando se cai em tentação. Como vês, estou disponível e carente nesta busca da companheira ideal, saindo a campo quando recebo uma sinalização positiva da minha intuição. Quer dizer...estou disponível em parte. Tenho duas filhas, com as quais costumo frequentar a Redenção, para andar de trenzinho e brincar no parque de diversões, repetindo o ciclo da vida portoalegrense com a nova geração...Sabe, eu gostaria de te convidar para tomarmos um sorvete no Lamby's, lá perto do Luar, mas estou achando que vou passar o resto do dia falando sozinho e que não vai dar em nada...??? -Uau!... Você sabe ser sintética e convincente. Este beijo que você me deu eu não vou esquecer nunca mais: IABADABADUUU!...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O PACTO DE HARAQUIRI DOS NOSSOS FILHOS

A expressão colocada acima, no título do texto, terá sido um bom título se conseguir passar de antemão a ideia de que o texto vai tratar do seu título, ou seja, vai esmiuçar a conexão que o título deve ter com o conteúdo do texto. No caso aqui, o título parece indicar que o texto vai tratar sobre a morte, a partir do seu enfoque simbólico no haraquiri. Claro que a morte é um espectro muito amplo, vai desde as questões físicas e emocionais, até as transcendentais religiosas e as metafísicas filosóficas. “A Morte na Juventude”, por exemplo, propõe um tema bem diverso do que “A Morte na Velhice”, mas ambos títulos já seriam eficientes o bastante para restringirem a visada de modo a delimitar que um ou outro assunto o leitor iria encontrar na abordagem do texto.
Ainda assim, mesmo “A Morte na Juventude” pode tratar de inúmeros recortes, como as mortes de jovens causadas por doenças, ou por envolvimento com drogas em acidentes de trânsitos, em assassinatos, bem como por suicídios. Um bom título deveria fechar mais o foco, tipo assim: “A Morte por Suicídio na Juventude”, sob o qual o leitor esperaria encontrar informações estatísticas e geográficas da ocorrência deste fenômeno social. Com este título o leitor acharia natural ficar sabendo que no Rio Grande do Sul há o mais alto índice de suicídios do país, maior do que o dobro da taxa do Brasil, e que alguns municípios gaúchos têm índices superiores aos dos gelados e sombrios países escandinavos que são os campeões em depressão no mundo. Talvez o leitor até se alarmasse um pouco em saber que cerca de 25% dos suicídios praticados por aqui, na região do pampa e da “Estética do Frio” (onde a pressão por “ser alguém na vida” é maior, devido à influência da colonização europeia), são de suicidas jovens com menos de 30 anos.
Sob este título o leitor poderia ficar sabendo que muitos adolescentes manifestam em redes sociais a solidão e abandono em que se encontram, e anunciam que vão se suicidar, em gritos sem ecos, pois ninguém acredita ou entende. Ou que, pelo contrário, há casos de suicídios assistidos e incentivados pela internet.  O leitor talvez nem quisesse ficar sabendo dos detalhes sórdidos: que o consumo de pesticidas, o enforcamento e as armas de fogo são os métodos mais comuns adotados. Mas, passivo às informações textuais, pelo menos o leitor ficaria sabendo que esta é uma tragédia silenciosa que não dá nos jornais. Não há divulgação por tabu e por medo que notícias diárias de ocorrências acabem incentivando ondas de suicídios entre as tribos urbanas e entre os lavradores interioranos.


Recentemente, porém, este tabu foi rompido no caso de um pacto de suicídios entre adolescentes na serra gaúcha, quando a morte de duas meninas e o ferimento de outras três que cortaram os pulsos, ganharam as manchetes das capas dos jornais por vários dias. Naturalmente que os pais não notaram nada de estranho nos comportamentos das suas filhas e foram surpreendidos pela tragédia.  Uma notícia chocante assim nos faz perceber que ninguém está livre, com tantas atribulações em nossas correrias diárias por “comida, diversão e arte”, de sofrer esta cruel cilada do destino com um dos nossos próprios filhos. Deus nos livre e proteja, amém!
Suicídios são os haraquiris dos psicóticos tempos modernos globalizados, caro leitor, hoje realizados em rituais discretos. Nós, os pais nascidos na era do rádio e que vivemos desatentos entre tantas informações em rede, muitas vezes sequer percebermos as que realmente são relevantes para as nossas vidas no momento certo, só tardiamente quando Inês já é morta: e o diabo que nos carregue!
 Mas, analisando bem, o título sugerido “A morte por suicídio na juventude” não teria ficado muito bom, teria ficado mais para uma tese psiquiátrica ou policialesca. Sob o título de O Pacto de Haraquiri dos Nossos Filhos, acabamos apresentando ao leitor um texto sobre a morte por suicídio no recorte de um determinado segmento etário e próximo de nós: os nossos jovens gaúchos. Assim, no final descobrimos que o título é, ou pode ser, um texto à parte. O título tem que sugerir conteúdo mas, ao mesmo tempo, também pode ser a conclusão confirmando ou negando o texto; ou até mesmo ser uma abstração poética, a cereja do bolo.
 Talvez o melhor título para este texto teria sido “O Pacto de Suicídio dos Nossos Filhos”, pois incluiria o tema principal (o suicídio) no título como uma manchete sobre um pacto dramático envolvendo os filhos do leitor. Mas a palavra suicídio é tabu até para servir de título, imagine dos nossos filhos, nem pensar.  Por isso amenizamos o título com o seu equivalente oriental, tido como um pacto heroico dos samurais, cujo nexo o leitor só irá perceber nesta última frase, no haraquiri fulminante do autor cravando o ponto final que causa o fim de todos os textos sob qualquer título.